Vila Autódromo: Terra para morar e plantar

Sandra Regina, moradora de Vila Autódromo falando do alimento produzido na comunidade
Sandra Regina, moradora de Vila Autódromo falando do alimento produzido na comunidade
Sandra Regina, moradora de Vila Autódromo falando do alimento produzido na comunidade

Há muitos argumentos para a permanência de Vila Autódromo em seu local de origem. Poderíamos elencar mais de uma dezena de pontos a favor da resistência das suas moradoras e de seus moradores. Não é a intenção desse texto além de recordar que elxs tem a posse legal de seus imóveis e sua reivindicação de permanência foi vitoriosa em várias instâncias jurídicas. Também constituíram um plano popular de urbanização detentor de um prêmio internacional. O legado da resistência desses cidadãos diz respeito ao Direito à Cidade que é tão ameaçado no Rio de Janeiro com seus espaços mercantilizados. A resistência de Vila Autódromo fortalece a democracia.

Há, no entanto, outros aspectos pouco explorados nos movimentos e mídias sociais. Trata-se do vínculo dos moradorxs com seus quintais. Para nós que integramos a Rede Carioca de Agricultura Urbana, ter um quintal produtivo é possibilitar a resiliência futura ao território. O valor da terra nua, não impermeabilizada por asfalto, cimento, grama diz respeito a capacidade futura da cidade reagir a acidentes ambientais extremos. Grande parte do impacto das enchentes urbanas é resultado da impermeabilização do solo. E, sem terra agricultável a cidade ficará mais e mais dependente do fornecimento externo de alimento e água. Relembramos o provérbio indígena: “afinal dinheiro não se come”!

Identificamos em Vila Autódromo o design propício à sustentabilidade que o mundo da especulação imobiliária ameaça violentamente. Passear pelas ruas de Vila Autódromo é perceber o vínculo de seus moradores com seus quintais. A população cultivou suas árvores produtoras de alimento. Em conversa com a Sandra Regina (foto) ela nos mostrou os pés de abacates, os coqueiros. Nesse dia colhemos laranja e cajá-manga. Vejam nesta segunda foto o tamanho e qualidade do cajá. Consideramos urgente inventariar essa enorme produção de alimentos na cidade. As árvores frutíferas são importantes para a agricultura urbana e fundamentais para a agroecologia na cidade.

Cajá manga colhido em Vila Autódromo
Cajá manga colhido em Vila Autódromo

Visitamos a horta comunitária também chamada de Espaço de Referência em Agroecologia – coordenado pelo Campus Fiocruz da Mata Atlântica com especial empenho da Valdirente Militão e do Robson Patrocínio. Esta horta é um espaço de visível amor à terra onde o alimento tem um valor central. Ali as mulheres de Vila Autódromo tendo à frente a Dona Denise a quem conhecemos recentemente e a Rita Aguiar, agricultora urbana da Colônia, vão lavrando a terra, colhendo alimentos saudáveis produzidos na cidade ou melhor, nesse território de resistência. Há mamão, temperos, ervas medicinais e um feijão recém-plantado.

Outra experiência relevante é a fossa verde – tecnologia social implantada em casa de Jane Nascimento. É uma forma de tratar o esgoto doméstico saneando as águas antes de devolvê-la ao solo. Essa experiência é resultado de um projeto também do CFMA, coordenado por Flavia Soares. Estava sendo monitorado em sua eficiência e eficácia através de um projeto de pesquisa. Neste momento não só a experiência como a casa da Jane está ameaçada por enormes galerias de saneamento básico. Ironicamente é uma obra faraônica para tratar o ambiente que degradam com o modelo de (des) envolvimento imposto à cidade. É uma rejeição arbitrária do modelo de saneamento ambiental local e sustentável. Em seu lugar consomem uma enormidade de recursos em mega empreendimentos voltado ao saneamento e destinado ao caos.

Diante deste contexto Vila Autódromo confere esse novo sentido à moradia popular. É o direito a terra urbana para morar e plantar. Ao lado disso defender o direito cultural ao trato de animais domésticos e seus vínculos preferenciais.

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