O sítio* Sertão Carioca surge em 2015, como iniciativa do Núcleo de Estudos em Ambiente, Território e Sistemas Agroalimentares (NEATS), vinculado ao PPGCS/UFRRJ e em parceria com o Laboratório de Biodiversidade do NGBS/Farmanguinhos/Fiocruz e as Redes Fito (Farmanguinhos/Fiocruz).

As ações do Núcleo têm origem no trabalho de pesquisadores envolvidos no Projeto Profito (NGBS).  A partir de uma proposta de capacitação e inserção dos agricultores do Maciço da Pedra Branca em um arranjo produtivo local voltado à produção de plantas medicinais e fitoterápicos, estabeleceu como primeira meta a compreensão das condições de produção e modo de vida desses produtores. Para isso, levou em consideração que este espaço vivido é resultado de processos sociais complexos tais como: a evolução urbana da cidade do Rio de Janeiro e das formas históricas de ocupação do Maciço e de seu entorno, das condições políticas e econômicas em que se realiza a agricultura na cidade.  É também efeito das orientações e projetos ambientais que transformaram grande parte deste território em Parque Estadual da Pedra Branca em 1974.

O Profito, inicialmente denominado Plantas Medicinais no Entorno do Parque Estadual da Pedra Branca, foi criado em agosto de 2006.

No período de 2007 a 2009, foram realizadas atividades de mobilização dos agricultores, de acompanhamento das associações e a elaboração de um diagnóstico sobre a atividade agrícola na região, que investigou de modo quantitativo e qualitativo a produção, as formas de controle da terra, o tamanho das propriedades, a organização do trabalho familiar, a inserção desses agricultores no mercado, o associativismo assim como a lógica e as expectativas desses produtores em relação a sua atividade.

Com recursos aprovados em edital interno da Fiocruz (Cooperação social para o desenvolvimento territorializado CSDT – 01/2009), inicia-se o curso de capacitação do Profito no período de 2010 a 2011, com ênfase em quatro eixos temáticos: Agroecologia, Fito, Gestão e Pós-Colheita.

Na priorização de demandas dos produtores a serem trabalhadas no curso, o tema das plantas medicinais articulava-se a questões de mercado, produção, construção do conhecimento e organização associativa, conforme foram descritas: como estimular um mercado de plantas medicinais; como classificá-las adequadamente; como desenvolver cultivos agroecológicos; como beneficiar e desenvolver novos produtos. Também foram apontadas necessidades relacionadas à conquista de direitos: “como ser reconhecido como agricultor pelo governo? ”

A complexidade de questões políticas e econômicas trazidas pelos produtores estimulou a equipe do Projeto a trabalhar de modo articulado a outros coletivos e a incentivar a participação dos produtores em fóruns, conselhos e redes.

Em 2011-2012, com recursos de novo edital interno (Cooperação social para o desenvolvimento territorializado – CSDT 02/2011), o Profito dá início à implantação de três sistemas agroflorestais (SAFs) de plantas medicinais. Desde então, vários resultados que envolvem as áreas de Ecologia, Agronomia, de Tecnologias Sociais têm sido trabalhados a partir dos SAFs.

O estreitamento de laços com a Rede Carioca de Agricultura Urbana aproximou também o Profito da Ong AS-PTA, que em 2011 desenvolvia o projeto Semeando Agroecologia na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e com a Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro. Muito importante também tem sido a participação da Rede Ecológica – movimento social de consumidores de produtos orgânicos – com as temáticas que envolvem a agricultura na cidade do Rio de Janeiro e a inclusão dos agricultores na Rede, seja como produtores e, às vezes, como produtores e consumidores.

Uma das agendas mobilizadoras desta articulação e o aprofundamento do debate sobre o tema da agricultura familiar e sua possibilidade de reprodução social em um contexto urbano foi a luta pela DAP ou declaração de aptidão ao Pronaf. As primeiras DAPs foram conquistadas em 2012.  A posse deste documento permitiu à associação Agrovargem fazer a primeira venda para o Programa Nacional de alimentação escolar (PNAE), ao colégio estadual Professor Teófilo Moreira da Costa, no bairro de Vargem Grande, que, simbolicamente, foi inaugurado, na primeira metade do século passado, como uma escola rural.

Desde 2012, projetos de extensão vinculados à Universidade Rural do Rio de Janeiro buscaram consolidar objetivos relacionados a mercados e ao associativismo, complementando as ações do Profito e intensificar a atuação em rede desses atores. Os resultados do Profito têm-se materializado nas experiências concretas dos agricultores, mediadores e parceiros em torno de práticas, políticas e pesquisas interdisciplinares (nas áreas da Biologia, Farmácia, Ciências Sociais, Comunicação, Direito e Agronomia), como uma rede sociotécnica em torno de plantas medicinais, inseridas nos sistemas agroalimentares.

A partir de 2013, intensificaram-se as ações dos coletivos reunidos em torno da Rede CAU e uma agenda de acompanhamento de políticas públicas, de criação de novos espaços de comercialização, de comunicação, de desenvolvimento de produtos e tecnologias sociais.

O sítio Sertão Carioca é assim um observatório das redes sociotécnicas e de participação política que envolvem os sistemas agroalimentares na zona oeste, conectando-os com outros territórios agroecológicos.

* Sítio como uma conveniente tradução de site, place.

 

 

 

 

 

 

 

 

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