Quilombo Ampliado: Ancestralidade e Relações de Parentesco nas Vargens

Raiane Mendes da Conceição

11/09/2018

Raiane e seu tio-avô, Jorge Cardia“Ser nascido e criado” nas Vargens é um passaporte certo para uma infinidade de relações de parentesco e compadrio que aproxima em diferentes graus os povos que vivem na floresta e os que vivem no asfalto, nas comunidades daqui de baixo. Isso pode nos levar a pensar sobre onde começa e onde termina, de fato, o quilombo e quem são os povos quilombolas que seguem na resistência cotidiana e que mantêm vivo o sangue daqueles que outrora se insurgiram contra a escravidão e que desafiaram o mundo em que viviam, indo construir um outro mundo lá dentro da floresta.

Eu me chamo Raiane, tenho 18 anos e até ingressar no Projeto “Convergência Política nas Vargens: O Empoderamento de Mulheres e Jovens” tinha ouvido falar de quilombo de maneira bem superficial. Este projeto para mim foi muito bom porque, surpreendentemente, ao participar de uma oficina de Manejo Agroflorestal, na qual fomos conhecer a casa de um casal de agricultores tradicionais do maciço da Pedra Branca, eu tive o prazer de reencontrar meu tio-avô, Jorge Cardia, e minha tia, Cristina Correa. Para mim, foi muito incrível porque eu não sabia dessa relação de parentesco e isso me deixou bem feliz. Eu nunca tinha imaginado ir à casa do meu tio-avô. Lembro quando chegamos à casa de Jorge e Cristina, depois andar bastante por quase 3 horas de trilha pela floresta acima, logo que entrei em sua casa, ele logo me reconheceu e falou que era sua sobrinha e começou a contar sobre a história da nossa família e de vários outros assuntos. Ao voltar à casa, contei a minha mãe sobre as minhas descobertas e ela disse que ele era nosso primo, contou histórias de quando eles eram pequenos e achou maravilhosa essa reaproximação. Ela acabou se afastando dos parentes do maciço porque foi ter uma vida em outro lugar, mas jamais esqueceu desse passado.

Nunca me imaginei quilombola, mas com esse projeto, tive o contato com essa realidade e, ainda que esteja no processo de digerir isso tudo, na busca de entender quem eu sou, posso dizer que o quilombo não é algo restrito aos livros de escola ou específico para aquelas pessoas que vivem dentro no maciço. Quilombo pode e deve ter um sentido bem mais ampliado até mesmo porque, antes de qualquer coisa, quilombo é resistência. Eu acho muito lindo isso tudo e nunca havia pensado nisso, mas, hoje, eu me reivindico quilombola também.

Além disso, no projeto eu pude aprender também bastante coisa que eu não sabia. Conheci flores comestíveis, tive várias vivências legais, fiz umas amizades mesmo eu sendo muito tímida, não conseguindo me soltar muito nos encontros que a gente tinha. Foram muito importantes as oficinas antimachista e antirracista, as práticas de manejo agroflorestal. Foi, verdadeiramente, um mergulho em um outro mundo, deixando muitos aprendizados e o desejo de seguir experimentando e conhecendo tudo que existe nesse território, reconectando-me, ao mesmo tempo, com minha ancestralidade. Para mim, foi uma honra participar desse projeto maravilhoso.

A autora, de 18 anos, é estudante de ensino médio. Bolsista de Iniciação à Pesquisa Militante Projeto “Convergência Política nas Vargens: O Empoderamento de Mulheres e Jovens” (Coletiva Hortelã / C.E. Teófilo Moreira da Costa / UFRRJ / FASE-SAAP)  

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