Certificação Quilombo Cafundá Astrogilda – 4 anos

Silvia Baptista

17/08/2018

16/08/2014
16/08/2014

Lembramos bem a trajetória que levou à certificação do Quilombo Cafundá Astrogilda em 2014. O ano era 2012, o ano do evento internacional Rio + 20. O mesmo ano da remoção da Rita Aguiar*. Tanto a casa quanto a lavoura da agricultora tinham sido barbaramente destruída por ação da prefeitura na Colônia Juliano Moreira. Estávamos no auge das ameaças de Remoções por conta dos jogos globais. Um belo dia (16/9/2012) saiu uma matéria num jornal matinal, o Bom Dia Rio:

 
5 MIL MORADIAS SERIAM REMOVIDAS DO MACIÇO DA PEDRA BRANCA.

Alerta!!! Nos engajamos em mais uma cruzada. Annelise Fernandez preparou um textão indignado. Confira o link ao final deste artigo**. É um documento que pertence à nossa história. Segue também o link*** onde o “sociólogo” Sergio Besserman desdenha de nossa capacidade de lutar. Ele disse no RJ TV: “como não há ao redor da Pedra Branca uma sociedade tão organizada como aqui ao lado do Parque da Tijuca…”
 
Simultaneamente o povo que luta por Moradia e por um #RioSemRemoções encontrou um documento da prefeitura onde estavam listadas cerca de 100 comunidades a serem removidas. A maioria era da Zona Oeste. Lá estavam todas do entorno imediato do PEPB. E de um modo incerto aquelas do interior do Maciço.
 
Maraci Soares foi guerreira ao iniciar uma série de reuniões articulando as lutas por moradia e contra as remoções com a defesa da agricultura tradicional. A primeira foi em Pau da Fome, outra no Alto Camorim. Foi feita pelo menos uma em Rio da Prata. Em Vargem Grande foram duas ou três. Temos todos os documentos relacionados – lista de presenças, vídeos, fotos. 
Foram encontros riquíssimos. Aqui na comunidade que veio a se tornar o Quilombo Cafundá Astrogilda os encontros foram organizados pela Agrovargem, atualmente conhecida como Associação de Agroecologia de Vargem Grande. Utilizávamos a igrejinha nesta época. Em um destes encontros um dos nossos agricultores mais idosos, o Carmélio Mesquita iniciou uma fala memorial e memorável. Ele dizia: “Nós todos aqui somos descendentes do mesmo homem: Manoel Mesquita, um escravo. Somos todos parentes”.
Arrepiei. Claro que desejo ainda descobrir o nome de nossa guerreira quilombola número 1… mas aí é querer demais, não é mesmo? Fiquei contente com o nome do meu ancestral. Manoel Mesquita o negão primeiro de nossa família, de meu lado Mesquita que herdei da avó paterna. Voltando à reunião: olhei em volta e todos e todas estavam consentindo com a narrativa do primo Carmélio, um homem raro em reuniões. Quem me conhece sabe que dou uns surtos… Atropelei o coordenador… Para tudo. Questão de ordem… sei lá o que falei. Só sei que o momento era único.
Interpelei a minha parentela: Quer dizer que é isso mesmo? Sim. Disseram quase todos. Alguns em alto e bom som. Outros sacudiam a cabeça. Até hoje me emociono fortemente com este momento de AUTODETERMINAÇÃO QUILOMBOLA. Eu vivi isto, amigas e amigos. Eu, nos anos 80, tinha integrado o movimento negro do Rio de Janeiro e sabia como ninguém que a autodeterminação, a identidade nunca é imposta ela brota, surge. Agora a consciência COLETIVA, a identidade de uma parentela quando surge é forte. É bela demais.
Com a concordância das pessoas deste encontro, coube a Maraci Soares o encaminhamento. Ela se encarregou de convidar um senhor do Conselho Municipal dos Direitos do Negro, o griô Mário Rosa, falecido em 2017. E assim foi feito. No próximo encontro após a autodeterminação o grupo que também integrava a Ong Panela de Barro – Instituto Étnico, Cultural e Ambiental assumiu a tramitação para a certificação. Registrei este momento em poucas palavras num antigo blog da Agrovargem, criando um documento para esta data onde já se encaminhou o pedido de certificação na Comunidade: http://agrovargem.blogspot.com/2013/03/comunidade-tradicional-de-vargem-grande.html
A partir daí muita coisa bonita tem acontecido e alguns desafios também pois somos humanas demais. Fomos convidadas para a certificação. E lá estivemos enquanto Agrovargem, Rede Carioca de Agricultura Urbana e Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro****.
Depois eu conto como foi a entrega da certificação também para as mulheres… Uma intervenção bem bonita!
“E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar” (Gonzaguinha)
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*    Vídeo depoimento – Destruição: A horta da Rita
*** Matéria no Bom dia Rio: https://globoplay.globo.com/v/2125390/
**** Quanto ao dia da certificação você pode ler aqui: http://sertaocarioca.org.br/2015/06/quilombola-sim-com-muito-prazer-12/

A autora é agricultora urbana, quilombola, feminista, mestra em ciências (MsC). É co-fundadora da Agrovargem. Milita na Rede Carioca de Agricultura Urbana, na Coletiva Popular de Mulheres da Zona Oeste. É também co-fundadora da Articulação Plano Popular das Vargens.

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