Ei, você? Escuta de verdade?

Roda de conversas e escuta crítica. Encontro pedagógico na Comunidade Cafundá Astrogilda, atualmente Quilombo. 26-10-2010.

Escutar de verdade exige leitura de contexto, leitura de mundo.

Quando se junta gente de raças e classes distintas, pode ter conflito. O entendimento das necessidades, dos pontos de vista e objetivos não surgem automaticamente. É necessário um investimento em mediação e o compromisso com o que vou denominar “Escuta Critica”.

Em 2007, o Projeto Profito fez uma proposta de gestão participativa. Fiquei atenta à persistência das pessoas em relação ao que desejavam da iniciativa. Era evidente que essas pessoas embora letradas não escreviam por escolha. A escrita não era um hábito, embora tecnicamente viável. Sabiam escrever, sabiam ler.  No entanto, tendo um ambiente acolhedor e de real participação social, elas repetiam oralmente e à exaustão o que desejavam: “Queremos ser reconhecidos como agricultores pelo governo”. Notem que era um projeto sobre plantas medicinais, mas a expectativa das pessoas envolvidas era diferente da instituição.

Esta insistência era evidenciada na fala. Coube a equipe técnica a difícil tarefa de escutar a demanda oral, traduzi-la para a escrita técnica e defender institucionalmente a legítima reivindicação das pessoas que participavam do Profito. Não foi fácil, disputas internas e diferentes interpretações do contexto tornavam difíceis as decisões necessárias. Quero sublinhar este trecho: Pessoas de perfis diferentes “ouvem” de modo também distinto. A experiência do Profito promoveu um aprendizado do que fosse esta “escuta critica” necessária ao empoderamento de agricultoras e agricultores. Daí que, contrariando muitas expectativas, passei a me dedicar a esse tema da oralidade. Este modo de conhecer e descrever a realidade tem o seu impacto positivo. No entanto, como “faca de dois gumes” tem também seu uso pelas forças autoritárias locais.

Nas bordas de florestas, nas periferias, nos quilombos, favelas ou em qualquer outro lugar onde há ausência de poder público desenvolvem-se processos de construção de saberes classificados como conhecimentos tradicionais, saberes tradicionais, saberes populares. Não são sinônimos, há gradações entre todas essas nomeações, mas vou tratar especificamente dos conhecimentos tradicionais e conhecimentos locais ecológicos. Eles se referem ao uso da biodiversidade, de seus territórios e de ambientes ecologicamente frágeis, onde é comum a ausência do estado democrático.

Esses sistemas de conhecimento são relacionados ao ambiente imediato. São orais. A manutenção desses sistemas são sobretudo, resultado da baixa interferência da Escrita como Modo de Pensamento*. Posso afirmar que a oralidade é um modo aberto de construção. As semioses que a compõe são como idas e vindas, um movimento interno das narrativas que se recriam em diferentes contextos e diante de interlocutores diferentes. Há muita contradição e existe uma prática de inclusões e repulsas, de dádivas e antagonismos que constroem e reconstroem aquilo que chamamos de comunidade. É o choque de versões sobre o cotidiano que gera avanços ou retrocessos em círculos dialéticos.

As escritas orientadas pela oralidade são provisórias, aparentemente incoerentes e abertas. Não são definitivas, voltamos a dizer: são relacionais e contextualizadas. Por outro lado, a escrita ocidental escolarizada se refere a “informações”. Ela molda a mente de seus usuários e se transveste de um status de “verdade”. Por exemplo, a informação tecnológica orienta quase todo o processo de urbanização, os serviços públicos. A informação científica é o resultado de uma pesquisa acadêmica. Apesar de todas as suas contradições têm um status bem sólido e respeitável. É preciso investir em Estudos da Ciência para compreender e poder discutir que nem todo artigo científico tem validade ou sequer prima pela ética e respeito ao seu “objeto de estudo”.

Aqui trata-se de uma população encarada como objeto e relatada com um desrespeito a sua luta histórica, que merece toda a sua atenção no próximo texto desta série. Nesse sentido, alguns artigos científicos não se distanciam tanto das narrativas comunitárias em seu caráter provisório e não permanente, como também se aproximam de narrativas autoritárias, irresponsáveis e desrespeitosas. Ao transferir de forma acrítica o que circula em contextos diversos reproduz a sua provisoriedade e mascara o caráter de ciência. Mesmo quando a fundamentação teórica e a discussão são coerentes, nenhum pesquisador sério tem o direito de colocar em xeque a honra alheia, em tom de brincadeira. O que lhe parece?

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* Maria Martha D’Angelo Pinto, pesquisadora de filosofia da Universidade Federal Fluminense, afirma que o fim da escrita hieroglífica e o surgimento da escrita fonética levaram a uma redefinição da linguagem oral (Pinto, 2005). Ou seja, a escrita modifica o próprio modo de expressão ou de objetivação do pensamento.

Foto do Acervo Profito: Roda de conversas e escuta crítica. Encontro pedagógico na Comunidade Cafundá Astrogilda, atualmente Quilombo. 26-10-2010.

Este texto integra uma campanha e utiliza a hastag: #Core.

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