Dez anos

Silvia Baptista

09/12/2017

As aquilombadas e um griô compõe a nova diretoria da Agrovargem
As aquilombadas e um griô compõem a nova diretoria da Agrovargem

Assisti muitos momentos de resistências e pelo menos dois grandes momentos de levante popular nas Vargens. Todos já na origem, desautorizados, difamados e até ameaçados. O povo preto e pobre nunca teve vez. Parecia improvável que um grupo de organização autônoma e popular tivesse algum sucesso contínuo nestas paragens. A Agrovargem ousou e conquistou vitórias.

E, como diz o poeta do cancioneiro do samba* em uma das expressões mais elegantes de nossa cultura oral:

“A gente chegou muito bem, sem desmerecer a ninguém…”

Sim,

“Enfrentamos no peito muito preconceito e um certo desdém…”

Fomos superando as fofocas, as difamações e ameaças nem tão sutis. Sabe qual foi a estratégia? Conversar com quem queria conversar. E aí fomos tecendo redes na vizinhança, na Zona Oeste do Rio, na cidade, no estado. Participamos de articulações nacionais e internacionais. Neste sentido, convém afirmar que a Agroecologia bebe da mesma fonte onde fomos criadas: utiliza a oralidade, o modo tradicional de construir conhecimento. Para fazer transformações se une à uma constante pesquisa científica (horizontal e ética) .

Somos pessoas acostumadas a este saber ligado à nossa terra com todos os seus caminhos e descaminhos (nossas contradições). Encontrar a agroecologia foi tudo.

A importância desta forma oral de construção nesta década foi tão grande que fiz do tema o trabalho que me deu o título de Mestra em Ciências (MsC). Chamou-se “Comunicação oral em redes sociotécnicas orientadas à plantas medicinais”. Meio pomposo não? Pois bem, agora quero traduzir essa reflexão para uma voz muito nossa, muito coloquial. Conto com a tua resposta. Sempre que eu não for clara, me pergunte, interaja.

Estou neste momento me sentindo completa e sobretudo empática para tratar tanto do adubo como das pragas nas nossas relações em rede. Estou pronta a analisar o bem, o mal e suas matizes na oralidade. É tempo de pensar a dádiva e a ‘contra-dádiva’, as forças que constroem e as personagens que nos dispersam, os nossos antagonismos. E é bom lembrar do que encontramos na Bíblia:

“quem conosco não ajunta, espalha”.

Convido você a acompanhar a Campanha a ser feita em alguns artigos, vídeos e memes a partir de agora. Ela se chama “Comunicação oral em redes e economias” #Core. Assim mesmo: do verbo corar.

Nesta Campanha nós vamos contar a nossa história, dando honra a quem tem honra, de dentro do movimento, resgatar as nossas raízes e valores e, sobretudo, ganhar forças para continuar a lutar.

Bora!!!

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Imagem: nova diretoria da Associação de Agroecologia de Vargem Grande: Maraci Soares (DIretora de Associativismo e comercialização); Silvia Baptista (Diretora Administrativa); Jorge Cardia Valois (Diretor-executivo, presidente); Acervo Agrovargem

* Samba de Jorge Aragão: Moleque Atrevido, parafraseado para “Mulher atrevida”

https://www.youtube.com/results?search_query=moleque+atrevido+-+jorge+arag%C3%A3o

A autora é agricultora urbana, quilombola, feminista, mestra em ciências (MsC). É co-fundadora da Agrovargem. Milita na Rede Carioca de Agricultura Urbana, na Coletiva Popular de Mulheres da Zona Oeste. É também co-fundadora da Articulação Plano Popular das Vargens.

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