Artesã beneficia o caule da bananeira

Francis Oliveira

18/06/2017

Francis Oliveira em exposição e venda de sua arte
Francis Oliveira em exposição e venda de sua arte

Meu nome é Francis de Oliveira sou artesã natural do Ceará, trabalho com a flora e materiais reciclados para criar minhas peças. Eu morei na Zona Oeste desde os 13 anos de idade, minha casa era no Camorim há 30 anos e hoje moro em Santa Tereza. Desde 1990 venho trabalhando estes quatro erres: releitura, reutilização, reaproveitamento e reciclagem.

Em 2000 trabalhei voluntariamente na Fazenda Modelo, com o artesanato para geração de renda, primeiro com tecidos, depois sementes e palhas que eram abundantes no local. No ano seguinte, fui contratada e trabalhei até 2003, quando mais ou menos tive meu primeiro contato com a fibra da bananeira, num sítio na Grota Funda (Ilha de Guaratiba).

Em 2006 comecei a conhecer melhor a fibra de bananeira e auxiliar na desidratação para confeccionar esteiras. Com o apoio financeiro da Maizo (uma coletiva de trabalho feminino), passei a desfibrar e fazer trabalho artesanal com a fibra, além disso, contava com o apoio de um grupo que trabalhava com plantas medicinais em quintais produtivo e depois passei a comercializar através de uma rede internacional chamada Novica.

Em 2007, fui convidada para compor uma coletiva na Grota Funda, Ilha de Guaratiba onde criamos oficinas para desfibrar e fazer artesanato. Estas oficinas se davam com mulheres e crianças da Ilha. Tivemos apoio de vários profissionais, entre eles um grupo de mulheres de Sepetiba chamado Maizo. Com este movimento entrei em contato com vários grupos, Pacs (Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul), AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa), economia solidária, Mulheres de Pedra (grupo feminista).

Em 2010 busquei tratamentos ecologicamente corretos para tratar e conservar a fibra da bananeira e formas naturais de tingir. Porque a sustentabilidade representava e representa para mim um principio fundamental. Com isso passei a buscar parcerias para trabalhar a fibra da bananeira, fiz algumas oficinas no Morgado, na Colônia, e em Vargem Grande com a possibilidade de fazer as oficinas como atividade vinculada ao Sertão Carioca (como conheço o livro fiquei encantada com a analogia), assim comecei a fazer as oficinas para mostrar o trabalho.

Em 2014, fui convidada para participar de um seminário em Teresópolis, lá conheci um grupo comprometido com as questões sociais, na verdade se tratava de um reencontro com o Pacs. Nos anos seguintes os reencontros com os grupos de 2007, e meu retorno a Vargem Grande, me fizeram conhecer os grupos de Agroecologia do Maciço da Pedra Branca e ser convidada para trabalhar na feira da Freguesia. Não apenas com meu trabalho de reciclagem, mas também com proposta de artesanato de fibra da bananeira para fazer bijuterias, esteiras, papel a base da fibra, peças de decoração.

  • Proposta da Oficina:

Meu trabalho está fundamentado no respeito à vida, através da releitura, reutilização, reaproveitamento e reciclagem, creio que é possível diminuir os dados causados ao planeta transformando o lixo arte e gerando renda com consciência.

Propus esta oficina para discutir uma transição ecológica do artesanato, já que havia ações locais com a bananeira, a alimentação saudável e os quintais produtivos.

Devemos ter consciência e nos utilizarmos de todos os materiais que a natureza nos oferece dando-lhes um destino útil. A bananeira nos dá o fruto pronto e rico em potássio, com este fruto podemos fazer a farinha e vários pratos doces e salgados da culinária brasileira. Com seu caule e folhas podemos produzir artesanato: cestos, fios para tecer, embalagens, papel artesanal.

Minha pretensão é criar um grupo de mulheres para trabalhar com o caule e a folha da bananeira para fazer artesanato, nesse sentido esta é uma oficina formativa.

Oficina Fibrarte realizada em 06/03/2017
Oficina Fibrarte realizada em 06/03/2017

Nossa oficina tem quatro momentos (etapas):

Desfibrar e conhecer os fios – o primeiro é o fio mais fino e mais forte, serve para costurar, por exemplo. Depois tiramos outros três fios que servem para fazer crochê, tecer macramê, com isso nos sobra a casca, caule e a barriga (total de 05);

Tratamento da fibra e dos fios – existem três tipos de tratamento para a fibra, o mais agressivo com o jimo cupim, o meio termo que aprendi com um agrônomo e o meu próprio tratamento com cravo da índia;

Tingimento – o tingimento pode ser feitos com tintas comuns, mas tenho buscado já há algum tempo métodos para produzir tingimentos naturais, obtive até o momento as seguintes cores: preto, laranja, amarelo e rosa. Embora a maioria das peças que faço mantenha a cor natural da fibra;

Confecção da peça – a fibra propicia uma grande quantidade de formas de produzir peças. Esta etapa dependerá do tipo de peça que vamos produzir, no caso desta oficina, embalagens para CDs e sabonetes.

—————————-

A primeira oficina no atual formato foi realizada na abertura da Semana de Lutas Feministas da Zona Oeste do Rio de Janeiro em 06/08/2017. Contou com o apoio do Instituto Pacs, através do Projeto Militância Investigativa. O texto foi feito em colaboração com a Rafaela Paula da Silva, mestranda em História Social da UERJ.

Artesã e militante investigativa da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Compartilhe

Comentários