Pelo direito de viver a identidade do meu bairro

João Pedro Rocha

19/09/2016

Paisagem cultural de Vargem Grande - Foto de João Pedro Rocha
Paisagem cultural de Vargem Grande – Foto de João Pedro Rocha

Já são 22 anos vivendo em Vargem Grande. O ar bucólico, o clima de campo, os familiares a cada esquina, a amizade com cada comerciante, o encontro a cada caminhar são cotidianos por aqui. O distanciamento da cidade grande, mesmo tão perto dela, não impediu por esses anos nosso desenvolvimento.  De forma simples e orgânica, reproduzimos por aqui o modo de vida que valorizamos.

A mobilidade sustentável está presente em nosso dia a dia, nas infinitas viagens que fazemos em nossas magrelas, seja até a padaria, até o ponto de ônibus ou até o trabalho. Caminhamos, pedalamos e até cavalgamos todo dia, mesmo que muitas vezes com dificuldade, para acessar a cidade.

A agricultura – orgânica, saudável e familiar – sempre estive presente em nossas mesas. Nos quintais de casa sempre saíram aipim, feijão, hortaliças e uma infinidade de frutas. Aqui, seja no sítio do vizinho ou na pequena casa da avó, sempre se colheu “um algo a mais” para completar a mesa e estreitar o contato com a terra.

A relação com a natureza é cotidiana, dinâmica, cultural. Seja nos banhos de cachoeira e caminhadas pela mata ao som do canto dos pássaros seja no uso de sacos plásticos amarrados ao pé para descer a rua com água no joelho após o temporal. Seja nas festas típicas nas praças e campos das comunidades ou na escuridão das varandas durante o apagão que destacava o céu estrelar.

Nesse momento de grande disputa pelos territórios da cidade, nos vemos em um rico momento de discussão do futuro que desejamos para nossa região. Reconhecer nossas necessidades não significa aceitar todo tipo de solução. Por aqui falta água, luz, saneamento e até educação (formal). Mas não faltam criatividade e gente guerreira para ajudar a encontrar a solução.

Hoje, quando os moradores de Vargens pedem por desenvolvimento econômico não estão pedindo por shoppings (e centros comerciais de um mesmo padrão) para destruir o comércio local. Estamos pedindo o fortalecimento e o desenvolvimento das potencialidades locais.

Quando pedimos por desenvolvimento social não pedimos a “Veneza Carioca com um barco na porta de cada condomínio luxuoso  expulsando os moradores, principalmente os de baixa renda, mas sim um plano habitacional e projetos sociais inclusivos que fortaleçam nosso modo de viver.

Quando pedimos por desenvolvimento ambiental e cultural não pedimos cinemas hollywoodianos e parques desconexos com o bairro existente, mas sim por preservação e ampliação dos corredores ecológicos com a criação de áreas de proteção e manutenção da identidade local.

Como ousam dizer, isso não é utopia, é nossa vontade de ver nosso bairro crescer, mas também de sua história e características manter.

Nascido e criado em Vargem Grande, o autor, João Pedro Rocha é bacharel em Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social - IPPUR/UFRJ e mestrando em Engenharia Urbana - Poli/UFRJ

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