Cuidado!

Silvia Baptista

17/09/2016

Lourdes Martins na horta da família
Lourdes Martins na horta da família

Devo minha vida às mulheres.  Primeiro por ter vindo do ventre de Dona Lourdes por sua vez gerada pela conjunção de Edith Martins, a Dona Filinha, com o negro e preto Higino Corrêa Siqueira. Os dois por sua vez  vieram de pessoas postas em condição de escravidão. Não apenas por ter nascido de minha mãe. Costumo dizer que ela, adventista do sétimo dia, vegetariana há quarenta anos foi uma guerreira em nossa família. Deixava de comer para nos colocar na escola naqueles uniformes impecáveis. Tínhamos apenas uma roupa nova por ano, mas nunca faltou um livro escolar, um caderno novo. Pilotava uma máquina de costura noite e dia. Ia entregar em bairros distantes bolsas enormes de roupas da “fábrica”, sem férias, sem 13º, no trabalho precarizado nosso de cada dia.

Após ter vivido todas as falácias dos anos 80 terminei aquela década “quebrada, disforme e sem luz”. Foi esta mulher, Dona Lourdes que liderou a minha recuperação. Passei a década de 90 (minha década perdida) e os primeiros dos anos 2000 catando cacos e juntando pedaços de mim e ela presente, Cuidando.

Encontrei nos anos 80 as organizações de mulheres dentro do movimento negro e costumo dizer que elas também contribuíram para que minha vida fosse salva, para que o suicídio não fosse um caminho. Muito das agressões sofridas em minha juventude foram derivadas de meu fenótipo não condizente com a expectativa de beleza colonizada que ainda perdura entre nós. Aquelas mulheres me ajudaram a interpretar o mundo pelo viés da negritude que reconheço em mim. Presto minha homenagem a estas companheiras – Sandra, Agnes, Ana, Azoilda (recentemente falecida), Neuza, e tantas mais que, sobretudo foram exemplos de autoestima apesar da hegemonia branca europeia. Isto foi crucial para que eu erguesse a cabeça e voltasse à vida.

Depois, já nos anos 2006 conheci Annelise Fernandez a quem já prestei e sempre vou prestar minhas homenagens. Depois desta guerreira conheci uma ruma[1] de mulheres organizadas, quase todas mais jovens que eu. Algumas são MUITO mais jovens. Poderiam ser as filhas que eu recusei ter por pavor de ver homens repetir meu pai. Com estas vou tecendo novos aprendizados. A intolerância que elas demonstram contra o arbítrio, contra a violência, contra o capital é a mais nova versão de mim. Serei sempre liderada pelas jovens feministas. Assim me faço jovem, rejuvenesço a despeito da idade e das questões geracionais.

Hoje, sábado, 17/09/2016, iniciei este texto com lágrimas nos olhos pela dor da incompreensão. Muito mais, porém, pela dor de uma sociedade que agora mostra seu viés mais feroz, autoritário e antiético.  E são sobre as meninas muito jovens que recai o pior dos mundos. Tenho muitas vezes falado da categoria Cuidado. Algumas companheiras dizem: não vamos reificar isto. Não vamos aumentar a carga de trabalho das mulheres. Eu concordo. Aliás, quem sou eu para discordar.

Cuidado não é algo que as mulheres farão. É uma categoria já construída historicamente. As mulheres já fizeram isto pela humanidade (se é que existe humanidade).  Mergulhar nesta categoria e grafá-la com maiúsculas é uma imposição para quem pensa uma nova sociedade com justiça social. Não são as mulheres que precisam trabalhar mais para Cuidar. São todas as organizações, instituições e pessoas que buscam a revolução. Não é possível pensar a transformação social sem aprender sobre o Cuidado, como expressão da economia da dádiva.

Eventualmente precisamos mergulhar fundo numa categoria para compreender o que há em sua natureza. Transmutá-la em uma nova ética, um novo perfil político que permeie nossas atitudes por onde seguirmos. Não acredito em pseudo lideranças que são incapazes de ouvir as mulheres. Precisam se reconstruir para pulsar com GAIA em sua dádiva maior.

Porém, vejo os homens se transformando. Aprendi a escrever Cuidado com maiúsculas ao ouvir a viva voz de um pesquisador, homem, branco e médico. Estes registros todos em uma única pessoa costuma apontar para um paradigma positivista, para ser bem amena. Mas o José Ricardo Ayres faz diferença. Recorre a Heidegger, e utiliza Cuidado para “se referir às relações dessa centralidade dos projetos no modo de ser dos humanos, com os modos de compreenderem a si e a seu mundo e com seus modos de agir e interagir”.

Se o contexto do artigo de Ayres discorre sobre o campo da saúde, ele acrescenta rapidamente essa dimensão nos coletivos humanos. É nesta direção que exigimos que a esquerda repense suas práticas para além de suas teorias também colonizadas para uma dimensão de aprendizado com as mulheres comuns que perpassam o seu caminho. Uma nova ética se impõe na construção do novo. Cuidado pode substituir a paz armada que o patriarcado chama “segurança”.

Cuidado!

[1] Homenagem às mulheres jovens. Ruma é uma expressão trazida por Maria, uma jovem feminista. Com licença, irmã.

A autora é agricultora urbana, quilombola, feminista, mestra em ciências (MsC). É co-fundadora da Agrovargem. Milita na Rede Carioca de Agricultura Urbana, na Coletiva Popular de Mulheres da Zona Oeste. É também co-fundadora da Articulação Plano Popular das Vargens.

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