Pelo direito à cidade

Mariana Bruce

19/05/2016

 Harvey Mariana   Na história do capitalismo um dos eixos fundamentais através do qual este contorna suas crises é por um processo contínuo de investimentos em urbanização/reurbanização. Na maior parte das vezes, essas obras de infraestrutura não visam necessariamente o bem-comum, mas, sim, estão imersas em um modelo predatório que David Harvey denomina de “destruição criadora” que tem uma “dimensão de classe”, na qual são geralmente os pobres, os desfavorecidos e os marginalizados do poder político que sofrem especialmente com esse processo. Não à toa, a violência é muitas vezes necessária para que a nova geografia urbana possa surgir dos destroços da antiga.
As transformações que vemos ocorrer no Rio de Janeiro sob o pretexto dos Grandes Eventos têm, portanto, este pano de fundo. A dimensão de classe mencionada por Harvey ganha contornos concretos nos investimentos milionários que empreiteiras e construtoras depositaram na campanha de Eduardo Paes (PMDB) para a Prefeitura do Rio em 2012 e em uma série de medidas subsequentes que expressam a completa e absoluta mercantilização da nossa vida e dos nossos direitos em beneficio daquelas.
Vivemos sob o jugo de uma “cidade-empresa” que não foi pensada para o bem-viver de seus cidadãos. Uma cidade tomada pelas chamadas “parcerias público-privadas” nas quais o interesse publico é subordinado aos interesses privados.
É por isso que, diante de todo esse processo, as cidades assumem uma importância estratégica nas lutas políticas, pois são espaços de poder onde esses rearranjos do capitalismo se materializam. Além disso, os territórios se convertem em polos propagadores de ações contra-hegemônicas a partir da ação protagônica dos setores populares que, por vivenciarem de forma mais intensa as contradições provocadas por essas transformações, passam a reivindicar seu direito de viver na cidade com dignidade.
Assim, a busca por um “fazer a cidade diferente” vai ocorrendo  a partir de iniciativas locais, espaço onde a vida, de fato, se realiza. Essas iniciativas estão em curso em várias regiões do globo, particularmente nas áreas marginais do capitalismo. Vargens é uma delas. O maior desafio é articulá-las como uma alternativa hegemônica global que freie os comportamentos destrutivos do capitalismo e impulsione novas formas organizacionais coletivas, bancos de conhecimento e concepções mentais, novas tecnologias e sistemas de produção de consumo, novos arranjos institucionais, novas formas de relações sociais e naturais, com o redesenho da cada vez mais urbanizada vida diária.
Quando denunciamos o PEU das Vargens e o PLC 140/2015 por tudo o que representam em termos de privatização e destruição de nosso território (tanto do ponto de vista ecológico, quanto humano), levamos em consideração todo este quadro ulterior.
Eis a importância da nossa luta, de sair da defensiva e partir para a construção dessa resistência, para a construção de propostas, de outros modelos de cidade, feitos e elaborados por nós, o povo, e em nosso benefício.
Vamos romper com essa lógica nefasta que nos tolhe o direito de existir na cidade e que compromete a nossa própria sobrevivência e vamos juntos e juntas construir um outro mundo possível. Das margens ao globo.

Pelo DIREITO À CIDADE, contra as privatizações, resistimos.

NÃO AO PEU DAS VARGENS!

NÃO AO PLC 140/2015!

POR UM PLANO POPULAR DAS VARGENS!

Ativa nos movimentos sociais, Mariana Bruce é mãe da Duda, consumidora organizada no Núcleo Vargem Grande da Rede Ecológica e doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense.

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