Quem diria? Nós do Maciço…

10/03/2016

Jorge, Cristina e Francisco no Palacio GuanabaraEra o dia 3 de dezembro do ano passado, 2015. Viajávamos de Vargem Grande ao Palácio Guanabara nas Laranjeiras. Como sempre que nos encontramos, em meio aos nossos risos e alegrias surgem as conversas mais densas. Como diz o Jorge Cardia, “quando junta três já vira reunião”. E, como co-autora ouso transgredir a linguagem: isso é bão!

Arrebatamos o Prêmio Maravilhas do Rio para a banana agroecológica, a verdadeira  musa do Maciço da Pedra Branca . Na reunião de volta… Ops! Na viagem de volta, a expressão da Cristina Santos, agricultora e primeira dama da Agrovargem foi tão cheia de vivacidade que deu título a estas curtas palavras. “Quem diria? Nós do Maciço ter um prêmio como esse! Valeu mais que dinheiro. Nós agradecemos as pessoas que votaram na gente”.

Daí a conversa gerou em torno da banana, colocando esta companheira e os demais passageiros como verdadeiros co-autores desta prosa. Claudemar Mattos é colaborador da ASPTA, agrônomo de gente, como prefere se intitular. Segundo ele, “neste momento as pessoas passam a reconhecer a agricultura da cidade do Rio de Janeiro. É um exemplo de resistência”.

Para nós, é um elo a imortalizar o modo de vida de sua comunidade tradicional pautado na unicidade homem-natureza. A sua presença na paisagem cultural da cidade do Rio de Janeiro parece afirmar uma futura recuperação socioambiental da outrora chamada cidade maravilhosa.

Pontifica na agricultura de Vargem Grande como um dos seus principais alimentos. Tem tal impacto sobre a segurança alimentar de suas comunidades que, em uma roda de conversa, a agricultora Madalena Gomes afirmou ter sobrevivido à custa da banana: “Foi a banana que possibilitou a nossa sobrevivência”. E, não é que, de certa forma, a Embrapa[i]  concorda com ela? Duas pesquisadoras concluem que essa cultura tipicamente tropical é um alimento básico para muitos povos. Sendo, portanto um dos alimentos mais comercializados no mundo. De acordo com essa posição mundial, a banana tem uma grande importância no sistema agroalimentar do Sertão Carioca.

Com o nome científico de Musa sp, a bananeira produz um fruta cujo sabor parece fazer jus a sua nomenclatura botânica. É considerada pela nutricionista Mariana Zogaib como fonte de  carboidratos e sais minerais, como sódio, magnésio, fósforo e em especial o potássio. Contém também vitaminas A e C. Sendo assim é extremamente útil na prevenção de cãibras e artrites, de doenças que afetam os rins, o fígado, o estômago, dentre outras características.

O centro de origem da banana é o sul da Ásia. Não é brasileira, portanto. Apesar disso parece que se adaptou muito bem por aqui alimentando famílias e avifauna. Jorge Cardia, profundo conhecedor dos cultivares que ocorrem no Maciço da Pedra Branca vai listando uma a uma: banana prata, prata mel, prata maçã que é diferente da banana maçã. Tem a pequenina banana ouro, a banana d’água, a figo, São Tomé e até algumas espécies exóticas como a banana vinagre. Mas é a primeira – a banana prata – que concentra toda a doçura de seu manejo agroflorestal.

Os dois agricultores da viagem-reunião (Francisco Caldeira estava conosco) junto com o agrônomo ressaltam a convivência com a floresta. “Estas espécies são cultivadas com interação com árvores nativas”, diz Claudemar Mattos. E destaca a produção de serapilheira, e outros bons indicadores de boa interação com a floresta. Não se vê sinal de erosão. Jorjão contou que com o tempo a banana se adaptou e produz na sombra. Lembra que são bananais muito antigos. Alguns com mais de 80 anos.

E, agora a banana-maravilha-agroecológica ganha a praça central do bairro. Domingo próximo, 13/3/2016, tem a implantação da Feira da Roça de Vargem Grande. O desejo é que agricultoras como Cristina Santos e outros agricultores experimentadores, tradicionais tenham direito a praça pública e à expressão pública de seu tesouro. Sim, eles são guardiões deste tesouro para a cidade do Rio que é a Cultura agrícola, agri-Cultura.

Banana maravilhaUm verdadeiro tesouro, prata e ouro. Mas é a banana prata que concentra toda a doçura. Experimenta! A banana de Vargem Grande é única.

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Co-autores:

Cristina Santos e Silvia Baptista. Claudemar Mattos, Francisco Caldeira, Jorge Cardia.

[i] DIAS, J. do S. A.; BARRETO, M. C. (Ed.). Aspectos agronômicos, fitopatológicos e socioeconômicos da sigatoka-negra na cultura da bananeira no Estado do Amapá Macapá: Embrapa Amapá, 2011. 1 CD-ROM

 

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