Sobre estratégias pós-capitalistas desde os pés do gigante

Ecologia de saberes na organização de mulheres. Foto de Silvia Baptista (20/11/2014)

Quilombo_Mulheres (5)Vivemos a beira de um colapso climático e civilizacional. A destruição da biodiversidade, a crise hídrica, o controle e monopólio das sementes e tecnologia, a falta de comida na mesa, a alta concentração de terra, as expropriações constantes, o consumo desenfreado, entre tantos outros, são alguns dos fatores que tornam imperativa a compreensão de que é necessário postular alternativas ao modelo hegemônico vigente.

Para tanto, um primeiro passo é reconhecer os limites fundamentais do arcabouço teórico sobre o qual baseamos nossas interpretações e estratégias de luta, para, em seguida, sairmos em busca por um diálogo com outras tradições epistêmicas e, finalmente, vislumbrarmos outros caminhos possíveis para a emancipação social.

As premissas ulteriores são relevantes na medida em que toda a racionalidade europeia que deu origem à Modernidade Ocidental (compreendida, é claro, não como uma entidade una e indivisível, mas diversa e plural) e às matrizes de pensamento com as quais mais dialogamos – seja liberal, seja marxista -, se baseia em um princípio reducionista perigoso que é o da separação do homem e a natureza ou, em outras palavras, a da subordinação da natureza aos interesses dos seres humanos.

O desenvolvimento industrial e tecnológico, sem dúvida, trouxe muitos avanços para a humanidade, porém, como nenhuma forma de conhecimento é isenta na luta de classes, à serviço de quem tem se colocado todos esses avanços? E mais, o que temos acumulado até aqui e deixado de acumular é definido por quem? Que tipo de tecnologia está sendo desenvolvida no campo? Se hoje, em tese, temos condições de alimentar os 7 bilhões de habitantes do planeta, por que mais da metade passa fome?

No Brasil, e no Rio de Janeiro em particular, vivemos uma realidade ainda mais terrível devido a um processo em curso de desagriculturalização. Os latifúndios que servem ao agronegócio e à exportação de commodities, ao lado de empreendimentos injustificáveis do ponto de vista alimentar e ecológico (como a construção do Campo de Golfe Olímpico em Área de Preservação Ambiental de Mata Atlântica na Barra da Tijuca, ou a construção de uma barragem no rio Guapiaçu em Cachoeira de Macacu) que só servem para atender aos interesses das grandes empreiteiras e da especulação imobiliária, tem substituído progressivamente a agricultura de base orgânica e familiar. Com isso, de onde – e com qual qualidade – virá o alimento que colocamos na mesa ou a água ou mesmo o ar que respiramos?

Em tempos nos quais o “ter” e o consumo tornaram-se mais importantes do que o ser, corremos o risco de dilapidar as poucas bases que nos restam e que sustentam a nossa existência no mundo. É na contramão dessa tendência, desde outras perspectivas epistêmicas, que a luta dos camponeses e dos povos originários e quilombolas torna-se central para a definição dos rumos da humanidade e da vida no planeta.

Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, também conhecido como Sertão Carioca, velhos protagonistas de luta que se mantinham a margem das relações políticas, hoje, são os principais sujeitos a tensionarem com esse modelo hegemônico a partir de suas lutas territoriais. Portanto, não se trata apenas da luta pela terra ou pela moradia ou por uma área de preservação ambiental, mas o que se discute é toda uma concepção de apropriação do espaço, uma luta pela reapropriação social da natureza.

Deste modo, ao lado das grandes bandeiras que reafirmamos sem hesitar como a da reforma agrária, contra os agrotóxicos, em defesa da agricultura resiliente, da agrofloresta, da democratização do acesso às sementes e à tecnologia, aqueles sujeitos são capazes de produzir uma nova ecologia de saberes. Segundo Boaventura de Souza Santos, a Ecologia de Saberes é o diálogo entre os saberes dos oprimidos através do qual se busca o estabelecimento de trocas e convergências possíveis com intuito de se constituir uma epistemologia das lutas daqueles que resistem e se opõem ao capitalismo, ao colonialismo e ao patriarcado. Há, sem dúvida, muitas pontes possíveis entre essas várias formas de conhecimento. Existem valores compartilhados entre os que lutam como a solidariedade, a reciprocidade, a coletividade, haja vista que não são exclusivos de um ou outro povo.

Com isso, aqui em Vargens, quando colocamos produtores e consumidores em uma relação horizontal e dialógica, produzimos novas epistemes, aproximamos mundos outrora relacionados apenas pela lógica do consumo, e o resultado que sai desse encontro é muito rico e potencial. Abre-se uma oportunidade para uma ciência horizontal, feita com o povo e para o povo. O impacto do envolvimento de todos no processo produtivo é enorme, pois desfragmenta, desindividualiza e sensibiliza todos aqueles que estão interessados em ressignificar a relação estabelecida com a natureza e entre si.

Passamos a compreender o trato e o respeito à terra, com seu próprio tempo, limites e diversidade. Desmonetarizamos relações, passamos a trabalhar mais com a dádiva, voluntariado, coletivismo. Ouvimos mais, pois o conhecimento tradicional está longe de ser regressista (ao contrário, pode ser lido como o útero onde se gesta o mundo novo). Usamos o dinheiro como instrumento, ao invés de sermos usados por ele. Convocamos as mulheres a se organizarem, a assumirem o protagonismo que lhes é inerente, apesar dos esforços de toda uma sociedade que as impele para esfera doméstica, privada, isolada do todo.

Ainda estamos engatinhando nesse processo, mas longe dos olhos do gigante, já é possível ver as novas gerações chegando, se apropriando e vivendo esse processo não mais como um desafio a ser levado à prática, mas como prática que se renova e se redefine a cada dia. Aonde chegaremos ao final de tudo isso, não podemos saber. Mas, seguramente, por mais que não sejamos capazes de acertar a cara do gigante, estamos firmes em nosso trabalho de lhe cortar os dedos dos pés.

—————

Nota: Na imagem da esquerda para a direita Dromícia Oliveira, Maraci Soares, Mariana Bruce (autora), Cristina Santos palestrando e a liderança Maria Lúcia Mesquita com a neta no colo. Na base da foto o mural Mulheres Negras organizado por Emília Jomalinis (PACS). 20/11/2014, Dia da Consciência Negra.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *