Salada de feijão guandu: tem uma panc na minha cozinha

09/09/2015

Salada de guanduCada dia fico mais encantada com o poder do alimento de origem conhecida tendendo a baixas emissões de carbono. Um dia raro, a Cristina Santos veio aqui. Agricultora de Vargem Grande que conheço desde sempre, só recentemente a encarei como agricultora. Lembro que um dia, lá pelos idos de 2008 ou 2009, eu voltava da casa de Nilva no alto do Maciço da Pedra Branca. Eu, sozinha e confiante descia meditando na vida e nas causas em que nos metíamos na época. Em uma curva da floresta quem eu encontro? Cristina. Conversamos um pouco e nunca mais larguei do pé dela. Na época tinha um eito de pimenta, como me contou. Hoje ela  é a primeira agricultora dapeada da cidade. Calma que explico: Dapeada, ou dapeado é um neologismo criado pelo povo do Maciço. Quer dizer que fulano ou sicrano é portador da famosa DAP (Declaração de Aptidão ao Pronaf).

Então voltando à origem desta prosa ela entrou na minha casa. Momento raro que agricultora-mãe- avó-cozinheira-Cuidadora não tem tempo para tantas visitas. Veio com um pacote na mão e pediu que eu guardasse na geladeira. Guardei. Conversamos, tomamos café, um bom queijo. Era para ser uma reunião, mas virou prosa, já que a mobilização não foi eficiente. Acontece.

Já estava saindo quando lembrou de repente do pacote. E aí contou que era guandu. Não, péra. Eu emiti um ruído qualquer de entusiasmo. Guandu? Delícia. Descascado e plantado na região? Melhor ainda, já que debulhar guandu não é coisa de fracos. E o que fez Cristina? Cismou de me presentear com o guandu. Primeiro fiquei avexada. Relutei. Depois aceitei. Congelei como a agricultora me instruiu. Um sábado qualquer, aproveitando a profusão de orgânicos que a Feira Agroecológica da Freguesia nos possibilita aqui nas Vargens, fiz uma salada morna de guandu[i]. E bateu uma dúvida: salada é por definição um prato frio? Convoco especialistas para me explicar direitinho. Eu decidi chamar de salada morna, pois no almoço preciso de um certo calorzinho no alimento. Pode ser em torno dos quarenta graus, mas cozido. Ainda!

Ingredientes:

Feijão guandu – 500 g

Alho – 1 dente

Limão galego – suco a gosto

Salsa a gosto

Tomate salada

Tomates silvestres

Azeite sem pena

Sal e pimenta – pitadinhas

Como preparar:

Cozinhe o guandu com sal e duas folhinhas de louro. Se não tiver, peça para Lia da Feira Orgânica do Rio da Prata. Use água suficiente, não exagere que joga fora o gosto e as propriedades todas. Quando estiver macio, desligue. Deixe na pouca água mesmo. Não tem problema. Pique os temperos. Use sal marinho. Corte o alho miudinho ou soque. Esprema o limão galego, um pouco de pimenta do reino. Corte a salsa e um tomate salada sem sementes naqueles pedacinhos bem miúdos. Misture todos os temperos. Utilize os tomates silvestres na decoração. Só não pense que eles servem só para enfeite.

Há inúmeras combinações de sabores que me dão altas ondas de prazer gustativo. Rúcula com manga é um exemplo. E, naquele sábado, quando experimentei esta receita descobri que guandu combina com tomates silvestres. Explodem com um sabor meio adocicado meio cítrico. Um achado.

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[i] A receita foi inspirada no livro “Plantas Alimentícias não convencionais no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas” de Valdely Kinupp e Harri Lorenzi. Publico hoje este texto já que vou tietar o Valdely Kinupp em evento da Embrapa Agrobiologia, com direito a pedido de autógrafo pela obra monumental.

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