Jane do Nascimento de uma nova era

Alexandre Magalhães

01/08/2015

D. Jane Nascimento (à direita) contempla a demolição de sua casa, 1º de agosto de 2015. Acervo do autor.
D. Jane Nascimento (à direita) contempla a demolição de sua casa, 1º de agosto de 2015. Acervo do autor.

Conheço a Dona Jane há quase oitos anos. Neste período, pude acompanhar sua trajetória militante e sua transformação numa das figuras mais importantes da luta contra a remoção de favelas no Rio de Janeiro.

Ela era incansável: articulava não só internamente atividades juntos aos moradores da Vila Autódromo, mas também se articulava com moradores de outras favelas e com movimentos sociais. Frequentou debates, reuniões com autoridades públicas (contra e a favor da Vila), ajudou a organizar protestos. Ela também sentia a agonia que toma aqueles que, nestas ocasiões de extrema violência, precisam se cindir em muitos: a líder comunitária, a mãe, a trabalhadora. E isso, obviamente, leva ao cansaço. Mas isso nunca a impediu de continuar.

Ao longo de todo esse tempo, percorremos juntos várias favelas ameaçadas de remoção. Neste período, ela se transformou. Eu me transformei. Vimos de perto, ela muito mais do que eu, a violência do Estado em seus mínimos detalhes. Pude sentir, ainda que sem a intensidade daquele que é atingido diretamente, a dureza deste processo. A violência, física, moral e simbólica, deste processo. E isso marca. E marca profundamente.

Ontem, após uma década de luta, dona Jane deixou a sua casa, tão duramente conquistada, tão duramente construída. O entorno demonstrava a asfixia a que fora submetida durante meses: de um lado, escombros das casas de seus vizinhos demolidas. De outro, um gigantesco prédio espelhado que, a um só tempo, refletia a luta de um pequeno contra um grande, mas também a própria força de destruição deste último. Mas refletia também a resistência.

Dona Jane2

Dona Jane disse a quem estava presente: “casa não se constrói com dinheiro, se constrói com amor”. Pude sentir um pouco disso quando, há quatro anos, ainda que de maneira um tanto atabalhoada, ajudei a reconstruir sua casa (sob a liderança do nosso mestre de obras Jorge), tijolo por tijolo, após a primeira destruição efetuada pela Cedae. Por isso e por tudo o que disse acima, quando sua casa for demolida definitivamente no sábado*, também vou sentir como se minha casa estivesse sendo demolida.

Mas esse relato não é para demonstrar uma derrota. Pelo contrário. Expõe a vitória de uma mulher de origem popular, vinda da favela, que nunca vendeu sua dignidade. Que sempre enfrentou os podres poderes de cabeça erguida. Que lutou por sua favela e que continuará lutando. Como ela mesmo disse, sairá de sua casa, mas não sairá da luta. E esta continua.

Vila Autódromo resiste!

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*A casa da Dona Jane do Nascimento foi demolida pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, na data da publicação deste texto, 01/08/2015. Conversamos com o autor do artigo, Alexandre Magalhães, durante a semana, quando D. Jane e família tinham sido removidas (29/07/2015). Acolhemos a percepção dele de que este artigo não é uma análise. É um texto afetivo. Valeria a pena imortalizá-lo com uma publicação? Hoje não temos dúvida. Sim, tudo que nos afeta merece ser registrado. D. Jane é puro afeto e pura luta. As suas vizinhas da cidade e os vizinhos de todo o mundo se afetam com a destruição de sua moradia. Registre-se esta data.

Nota da equipe do sítio virtual Sertão Carioca

 

Alexandre Magalhães é doutor em sociologia, sobretudo um amigo e militante.

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