Vila Autódromo: Terra para morar e plantar

18/07/2015

Sandra Regina, moradora de Vila Autódromo falando do alimento produzido na comunidade
Sandra Regina, moradora de Vila Autódromo falando do alimento produzido na comunidade

Há muitos argumentos para a permanência de Vila Autódromo em seu local de origem. Poderíamos elencar mais de uma dezena de pontos a favor da resistência das suas moradoras e de seus moradores. Não é a intenção desse texto além de recordar que elxs tem a posse legal de seus imóveis e sua reivindicação de permanência foi vitoriosa em várias instâncias jurídicas. Também constituíram um plano popular de urbanização detentor de um prêmio internacional. O legado da resistência desses cidadãos diz respeito ao Direito à Cidade que é tão ameaçado no Rio de Janeiro com seus espaços mercantilizados. A resistência de Vila Autódromo fortalece a democracia.

Há, no entanto, outros aspectos pouco explorados nos movimentos e mídias sociais. Trata-se do vínculo dos moradorxs com seus quintais. Para nós que integramos a Rede Carioca de Agricultura Urbana, ter um quintal produtivo é possibilitar a resiliência futura ao território. O valor da terra nua, não impermeabilizada por asfalto, cimento, grama diz respeito a capacidade futura da cidade reagir a acidentes ambientais extremos. Grande parte do impacto das enchentes urbanas é resultado da impermeabilização do solo. E, sem terra agricultável a cidade ficará mais e mais dependente do fornecimento externo de alimento e água. Relembramos o provérbio indígena: “afinal dinheiro não se come”!

Identificamos em Vila Autódromo o design propício à sustentabilidade que o mundo da especulação imobiliária ameaça violentamente. Passear pelas ruas de Vila Autódromo é perceber o vínculo de seus moradores com seus quintais. A população cultivou suas árvores produtoras de alimento. Em conversa com a Sandra Regina (foto) ela nos mostrou os pés de abacates, os coqueiros. Nesse dia colhemos laranja e cajá-manga. Vejam nesta segunda foto o tamanho e qualidade do cajá. Consideramos urgente inventariar essa enorme produção de alimentos na cidade. As árvores frutíferas são importantes para a agricultura urbana e fundamentais para a agroecologia na cidade.

Cajá manga colhido em Vila Autódromo
Cajá manga colhido em Vila Autódromo

Visitamos a horta comunitária também chamada de Espaço de Referência em Agroecologia – coordenado pelo Campus Fiocruz da Mata Atlântica com especial empenho da Valdirente Militão e do Robson Patrocínio. Esta horta é um espaço de visível amor à terra onde o alimento tem um valor central. Ali as mulheres de Vila Autódromo tendo à frente a Dona Denise a quem conhecemos recentemente e a Rita Aguiar, agricultora urbana da Colônia, vão lavrando a terra, colhendo alimentos saudáveis produzidos na cidade ou melhor, nesse território de resistência. Há mamão, temperos, ervas medicinais e um feijão recém-plantado.

Outra experiência relevante é a fossa verde – tecnologia social implantada em casa de Jane Nascimento. É uma forma de tratar o esgoto doméstico saneando as águas antes de devolvê-la ao solo. Essa experiência é resultado de um projeto também do CFMA, coordenado por Flavia Soares. Estava sendo monitorado em sua eficiência e eficácia através de um projeto de pesquisa. Neste momento não só a experiência como a casa da Jane está ameaçada por enormes galerias de saneamento básico. Ironicamente é uma obra faraônica para tratar o ambiente que degradam com o modelo de (des) envolvimento imposto à cidade. É uma rejeição arbitrária do modelo de saneamento ambiental local e sustentável. Em seu lugar consomem uma enormidade de recursos em mega empreendimentos voltado ao saneamento e destinado ao caos.

Diante deste contexto Vila Autódromo confere esse novo sentido à moradia popular. É o direito a terra urbana para morar e plantar. Ao lado disso defender o direito cultural ao trato de animais domésticos e seus vínculos preferenciais.

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