Cozinhar como ação cultural

Maraci Soares, uma das responsáveis pela ação local.
Maraci Soares, uma das responsáveis pela ação local.
Maraci Soares, uma das responsáveis pela ação local.

Nos últimos 10 anos, nós perdemos a conta das vezes em que estivemos as duas envolvidas com o planejamento e o preparo de alimento para grupos. Passamos juntas por experiências de providenciar comida de verdade para encontros de 30 e até duzentas pessoas. Muitas vezes, ao redor da mesa, a conversa se voltava para o alimento, sua qualidade, origem. As receitas tornavam-se um saber compartilhado como a alimentar também a cumplicidade entre as mulheres. O que colocávamos à mesa expressava profundamente a nossa cultura do cotidiano.

Assumimos então que o alimento é esse tema gerador potente de energia, criador de novos pertencimentos. A mesa é um círculo de cultura no sentido mais freireano. Quando as sucessivas experiências consolidaram essa visão passamos a migrar para outras linhas de atuação. Ao final do ano passado (2014), a convite do Prof Carlos Motta, apresentamos essa ação local à concorrência de um prêmio junto à Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Entramos meio que sem compromisso. Ganhar não era uma meta. Queríamos apenas conhecer as pessoas e processos que regem os investimentos culturais do Rio. Afinal, se a cidade fosse nossa, a cultura viva seria o maior investimento.

Com certa dificuldade com os prazos, burocracia e tal, apresentamos a nossa atuação. Ficamos surpresas quando fomos convidadas à entrevista. No dia agendado fomos as três para o Centro Cultural Municipal Dyla Sylvia de Sá, na Praça Seca. Sim, éramos três: a pequena Isabelle nos acompanhou na entrevista. E causou. Subia, pulava, corria, fotografava. Como é linda e tagarela. Dávamos boas risadas com a menina. Bons momentos. Ainda que descontraídas, observávamos as pessoas atônitas com livros, banners, cartazes. Buscavam comprovar sua atuação.

Nós três tínhamos apenas o nosso testemunho. Em meio à descontração produzida pela Isabelle, fomos assim ‘de mãos abanando’ e peito aberto à entrevista. “Mara do céu! nós não trouxemos nada. Não temos nada! Estamos fora!” Mas tínhamos vivência – anos de trabalho. Ainda assim a entrevista foi tão rápida e coloquial que saímos com a certeza de que o prêmio não seria nosso. Tempos depois fomos comunicadas que estávamos aprovadas. Até que um dia… Tchan! Lá estava a ação local publicada no Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro[1]. “Mulheres do Sertão Carioca e seus quitutes” estava homologada como ação cultural local.

Entre as 85 ações premiadas outras duas tocavam especificamente na culinária: “Aproveitamento e Reaproveitamento de Alimentos: A Arte de Cozinhar” proposta por Noemia de Mello Souza e “Feijoada e Roda de Samba do Quilombo de Sacopã” de Luiz Martins Pinto. Considerando comer um ato agrícola, podemos dizer que a ação premiada “Horta Comunitária e Tecnologias Sociais de Baixo Custo”, de Zolmir da Silva Figueiredo também assume a causa da alimentação. Observamos que em Vargem Grande, duas outras ações foram homologadas – O conhecido e querido “Espaço Néctar” de Sérgio de Carvalho e “Ação Griô”, proposta por Sandro da Silva Santos, do Quilombo Cafundá Astrogilda.

O que faremos com o prêmio?

Parte de nossa arte culinária está registrada e sistematizada. Em breve vocês poderão se divertir às nossas custas com o trabalho das duas feijoadas – conversas entre a tradição e o veganismo. Isso praticamente está pronto com a atuação impecável da Joselita Benjamin e Cléo. A partir de nosso círculo de mulheres da Rede Carioca de Agricultura Urbana e do nosso berço, o Movimento União Popular, vamos identificar o maior número possível de experiências de cozinha como expressão cultural.

Na medida em que conhecermos novas experiências vamos registrando em fotos, vídeos, textos. E assim colecionaremos receitas e causos. Buscando unir as mulheres que produzem comida de verdade. Faremos em média doze oficinas. Algumas serão simultâneas aos intercâmbios de quintais promovidos pela Rede CAU. Eventualmente teremos um bom diálogo com nutricionistas parceiras, como a Ana Paula Rodrigues, Irene Pinho, Mariana Zogaib , a Renata Zolano .

Certas oficinas terão um perfil de registro. Uma oficina sobre fotografia para redes sociais será ministrada pela fotógrafa Rosa Bernardes. Esperamos uma oportunidade por trabalhar registros e fotografias de alimentos com Mariana Morais e Juliana Dias, da empresa Malagueta News, que mandam super bem na área do jornalismo gastronômico.

Já em 2016, no finalzinho da caminhada  faremos duas oficinas de sistematização. Uma voltada para 15 ou 20 mulheres mais engajadas e outra para cerca de 100 companheiras. A intenção é criar um material que aponte na direção de um guia gastronômico do  Sertão Carioca. Na prática faremos uma cartilha com fotos, prosas, poesias, receitas e muito afeto.

[1] D.O.M 16/03/2015, Página 85 – disponível em http://goo.gl/eFGzHg

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