Redes e redes: o que elas dizem sobre nós

Acervo Profito
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Transcorria o processo de capacitação no Projeto Profito Pedra Branca. Um belo dia, durante um processo de avaliação formativa, começamos a refletir coletivamente sobre o conceito de rede. Surgiu uma fala à primeira vista fora do contexto: rede é uma coisa que agente joga e depois puxa. Ela não é a única a se expressar com tamanha ousadia, mas confesso que sou eterna fã da Madalena Gomes. Quanta sabedoria. Digo isso por ser uma iniciante nos estudos latourianos sobre rede sociotécnica[1]. Aprendi que não há ciência e tecnologias fora das redes e que este ato de puxar tal e qual a rede de pesca é uma dimensão de poder-fazer. Então, se pensamos em redes é porque desejamos uma realização qualquer. Queremos uma influência no ambiente, uma interferência política. Ou seja, uma estratégia de poder.

No mesmo dia, na mesma oficina, alguém completou: vai envolvendo, amarrando as pessoas. Que eu pensava que não ia mais encontrar. Não temos infelizmente o registro de quem se expressou dessa forma. No entanto já associou a palavra rede a pessoas. E, na mesma direção poderíamos citar uma conversa antiga dentro da Rede Carioca de Agricultura Urbana sobre grupos e agrupamentos no sentido dado por Jean Paul Sartre. Seria a rede um grupo?

Esse conjunto de visões sobre redes casa muito bem com o sentido de polifonia que desejamos imprimir ao sítio Ser Tão Carioca. O que é rede? O que você quiser que seja. Rede pesca, rede-grupo, rede-agrupamento, rede de cabelos (ainda existem?). A rede de descansar, balançar, dormir é a melhor. Desejada e solicitada. A Rita Aguiar colocou na decoração da mesa da Pré-Conferência de Segurança Alimentar de Jacarepaguá uma rede-balanço.  Segundo ela a rede representava os pescadores que precisavam ser lembrados naquele evento. Transformou a rede de dormir em um ícone dos pescadores. Estendeu um vínculo entre a rede disponível com a rede desejada. Com esse gesto ela re-produz outra rede: de semioses, de produção de sentidos, de conhecimento, potente de energia criativa.

No entanto temos que fazer justiça aos nossos parceiros. Enquanto editoras desse sítio estamos imbricadas em três Redes-organizações ou instituições. São a Rede Ecológica, a Rede Carioca de Agricultura Urbana e as Redes Fito. Quando uma organização ou instituição se autodenomina Rede, nós marcamos essa distinção escrevendo com maiúscula. Fazemos isso para distinguir a expressão do que pretendemos afirmar, rede (minúscula) para tratar de relações do cotidiano.

Está registrado que o primeiro pensador a falar em redes foi Alfred Radcliff-Brown, um antropólogo britânico, que usou a noção de rede para expressar de modo impressionista o que sentia ao descrever metaforicamente o que via[2]. Há vários autores que convergem com a visão do autor inglês. Esse sentido da representação, do simbolismo, da metáfora é talvez a parte mais criativa da ideia de redes. Diversos grafismos registram análises muito sintéticas sobre os relacionamentos nas redes sociais (virtuais ou não) e que produzem insights poderosos.

Imaginem se a Rita não lembrasse a rede disponível. Os pescadores seriam solenemente excluídos de um encontro sobre a segurança alimentar e nutricional. E isso aconteceria num território de margens de um sistema lagunar que alimentou muita gente. E, responsáveis pela escuta e mediações conduzimos essa voz a um alcance maior nas redes virtuais. Gravamos esse belo depoimento disponível aqui. Tanto a rede balanço disponível e usada na decoração como os equipamentos de registro para transportar a fala da Rita para outros lugares são objetos.

E aí? As redes são pessoas? Também são. Mas os objetos e híbridos também se relacionam nessas redes sociais. Imaginem o potencial de uma ferrovia ou  de uma torre de telefonia celular em uma região. Conhecemos lugares no Maciço da Pedra Branca onde não há telefone, energia elétrica e consequentemente não tem endereço postal. Qual é o impacto disso nas relações sociais das pessoas que vivem nessas condições? Não é difícil imaginar.

[1] BAPTISTA, Silvia R.N. Comunicação oral em redes sociotécnicas orientadas a plantas medicinais: a relação entre informação científica e conhecimento tradicional. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde, Rio de Janeiro, 2014

[2] ENNE, Ana Lúcia. Conceito de rede e as sociedades contemporâneas. Comunicação e Informação, V 7 nº 2; pág 264-273, 2004.

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