Quilombola sim, com muito prazer!

Ana Condeixa

11/06/2015

Foto: Ana Condeixa
Foto: Ana Condeixa

A Comunidade Cafundá Astrogilda, em Vargem Grande, nasceu há mais de dois séculos, mas, somente no dia 16 de agosto de 2014, foi reconhecida pela Fundação Palmares, instituição pública-federal voltada para promoção e preservação da arte e da cultura afro-brasileira, como Comunidade Quilombola. Batizada em homenagem à matriarca do lugar, Dona Astrogilda. A expressão Cafundá (uma variação da palavra cafundó) quer dizer lugar ermo, distante.

Uma grande festa reuniu moradores, amigos e representantes de movimentos sociais para testemunharem a entrega da Certificação. Segundo Jorge dos Santos Mesquita, o Pingo, neto de Astrogilda, a Comunidade é oriunda de escravos libertos que se espalharam pela serra de Vargem Grande há anos: Nós estamos aqui há 300 anos. Tem ruína das fazendas lá em cima, fazenda de café. Existem paredes de pedra, feitas por escravos, de 6 metros de altura que entra floresta a dentro mais de 60 metros. Tem todo um sítio arqueológico escondido na mata que ninguém sabe, nem o Iphan sabe disso. Estes escravos libertos que formaram seus sítios e construíram suas famílias deram origem aos troncos familiares que temos aqui, os Mesquita, tradicionais aqui, os Vieira, os Ferreiras, explica. Maria Lúcia, neta de Astrogilda, emocionada e orgulhosa falou da matriarca, Foi uma mulher que me ensinou muito, através do que ela ensinou, todos praticamos o bem para a comunidade. Amanhã ela faria aniversário… Era uma grande mulher, tenho orgulho disso e quero um dia ser igual a ela. Carmélio de Santos Mesquita, 78 anos, nascido em Vargem Grande, produtor de bananas, comemora o fato da comunidade ser reconhecida: Eu me identifico sim, com o povo quilombola. Até onde sei meu avô Manoel Sergio dos Santos Mesquita era um escravo fugido, um quilombola, assim como a minha tia-avó Astrogilda.

Foto: Ana Condeixa
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Aos poucos, os moradores do Cafundá Astrogilda foram chamados por Sandro Mesquita, filho do Pingo, neto de Astrogilda e grande apresentador do evento a se aproximarem ao palco. Na comunidade, todos são irmãos, primos, tios e sobrinhos, todos descendentes do povo negro escravo que aqui chegou há anos – exemplo da resistência e da luta pelo direito à terra e à memória de seus antepassados. Hilton Cobra, o Cobrinha, presidente da Fundação Palmares, veio especialmente de Brasília para certificação e trouxe consigo na bagagem uma mensagem especial: O quilombo deve ser o princípio desse patrimônio, se a gente pensar no período em que essas pessoas estavam escravizadas, que fugiram e criaram seus quilombos, suas resistências, para além da memória cultural você tem também a memória da resistência desse povo. comemorou. Para marcar a presença e a importância da mulher em todo o processo, Silvia Baptista, também deixou o seu recado: Gostaria de lembrar que a nossa luta passa por vários setores e não será possível construir a Sociedade Quilombo do Futuro se não passar por uma revisão desse papel feminino. Nossa gratidão à Maria Lúcia, Domícia, Dona Tida, Angélica, a Lila, muitas mulheres falecidas que nos inspiram a prosseguir. Néia Alcântara, representante de Palmares no Rio de Janeiro, comovida também falou do papel da mulher neste processo: Quando a gente vê Comunidade Astrogilda, que coisa forte. Mais uma vez é uma mulher que divide o seu saber com todos e isso é muito bonito. É muito gratificante pra mim também entregar essa certificação a vocês. Parabéns a todas nós, parabéns às mulheres dessa comunidade. Outras personalidades foram chamadas ao palco. Enquanto entregava um chapéu feito à mão ao Cobrinha, o agricultor Pedro não se conteve e disse: Eu queria agradecer a presença de todos. Eu não sei falar muito, mas muito obrigado de coração e obrigado ao Hilton por trazer todo esse conforto pra gente. Já Paulo Martins, 90 anos, o mais velho da Comunidade só tinha uma coisa a dizer: “Curtam a festa que tá bom demais!” Assim o Certificado foi entregue embaixo de aplausos calorosos.

Foto: Ana Condeixa
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A questão da agricultura urbana e familiar foi lembrada por Claudemar Mattos da Articulação Agroecologia do Rio de Janeiro “É com muita satisfação que estou aqui. A agricultura urbana, que é a agricultura da qual fazemos parte, praticada nos espaços urbanos. O uso dos espaços urbanos para a produção de alimentos, plantas medicinais e a criação de animais, resgatando a cultura e promovendo uma maior conexão entre o campo e a cidade”. Já o professor Carlos, diretor da Escola Teófilo, onde estudam as crianças da comunidade, fez questão de marcar presença e emocionado revelou: É uma felicidade grande ter sido a primeira escola do Rio de Janeiro a comprar da Agricultura Familiar. É uma forma de reconhecer os trabalhos do pessoal daqui da região. Parabéns a todos. O poder está com vocês, com o povo! Assim, a Festa seguiu noite a fora com o grupo de capoeiristas, com comes e bebes tradicionais. Assim, toda a Comunidade Cafundá Astrogilda foi dormir naquela noite, abençoada pelos orixás da crença de seus ancestrais, certa de que o primeiro passo foi dado e o Quilombo do futuro surgirá socialmente justo e ecologicamente correto.

Ana Condeixa é jornalista, professora universitária e doutoranda do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT/Fiocruz).

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