Escola de ensino médio em busca de práticas agroecológicas

Implantação de composteira no Ciep 165 Brigadeiro Sérgio de Carvalho. Acervo do sítio.
Implantação de composteira no Ciep 165 Brigadeiro Sérgio de Carvalho. Acervo do sítio.
Implantação de composteira no Ciep 165 Brigadeiro Sérgio de Carvalho. Acervo do sítio.

O presente ensaio trata de discutir os esforços de uma escola de ensino médio da cidade do Rio de Janeiro para aproximar-se das práticas sustentáveis e agroecológicas. Tradicionalmente pensar a relação entre a agroecologia e a escola é pensar em educação do campo ou em escolas técnicas de agricultura, pois estes são os espaços que já possuem atividades afins e contam também com mão de obra com alguma formação ou inclinação à área.

Se nestes ambientes a prática agroecológica surge embasada em afinidades com a agricultura nas escolas urbanas não. A escola é parte integrante de seu sistema social e a sociedade urbana no Brasil ainda não absorveu as práticas e representações condizentes com os propósitos da segurança alimentar. Não se questiona qual é o alimento que lhes é fornecido, como foi cultivado, quem planta ou em que condições socioeconômicas foi produzido.

Embora, exista um exercício de parte da comunidade civil organizada em modificar tal quadro e criar hábitos alimentares mais conscientes, o que derradeiramente está em voga, sobretudo, para crianças e adolescentes são hábitos meramente orientados pela sociedade de consumo, como as refeições rápidas nas grandes cadeias de fastfoods ou nas praças de alimentação de shopping centers. E, portanto, se as sociedades urbanas não estão empoderadas das discussões a respeito da agroecologia, as escolas urbanas como parte deste universo muito menos. Então, falar da busca de práticas agroecológicas numa escola que está impregnada de concepções urbanas de mundo, é falar de “um outro” que lhe é estranho, um outro pelo qual não se encontra referências, mesmo que este outro, como no caso em questão, seja seu vizinho.

O CIEP Brigadeiro Sérgio Carvalho está localizado na zona oeste do Rio de Janeiro, no bairro de Campo Grande, que é um dos bairros com maior densidade demográfica da cidade e conta com mais de um milhão de habitantes. O bairro é circundado por dois grandes maciços o de Gericinó e o da Pedra Branca. O CIEP está situado próximo deste último maciço onde a presença da agricultura é centenária, isto faz com que entre os alunos do CIEP estejam presentes filhos e parentes dos agricultores locais.

Podemos dizer que o macroambiente em que o CIEP está inserido é urbano e que seu microambiente é rural, ou seja, uma ilha agrícola mergulhada num oceano urbano que por dezenas de anos apostou que a agricultura não se manteria, mas ela permanece viva e se fortificando.  Embora o CIEP esteja nesta área de transição as representações sociais da comunidade escolar sofrem grande influencia da área urbana. Desta forma, se nas discussões das práticas agroecológicas no meio rural o primeiro tema a ser tratado é a própria agricultura, no meio urbano o primeiro tema é a ecologia, assim, não foi diferente no CIEP. É importante observar que a aproximação com a agroecologia nunca foi algo planejado, mas se deu da forma mais natural possível, no amadurecimento das práticas de educação ambiental.

Entre os anos de 1999 e 2000 o CIEP cedeu espaço e alunos à ONG Roda Viva, para tornar-se base do projeto de Eco Intercâmbio Brasil-Canadá, de onde saíram os primeiros monitores de qualidade das águas. Estes jovens após serem qualificados, coletavam e pesquisavam as águas do Parque da Pedra Branca. Outra importante formação deste projeto era a formação de guia turístico com aulas práticas nas vertentes do maciço.

No ano 2000, por iniciativa da professora de Biologia do CIEP, Ana Cristina, teve início um grupo interdisciplinar de educação ambiental que contava com professores das áreas de Biologia, Geografia, Química, Língua Estrangeira e eventualmente com professores de outras áreas, além da animação cultural. O grupo desenvolvia diversos trabalhos de Educação Ambiental de cunho tradicional como limpeza dos rios, atividades culturais nas praças e caminhadas ecológicas que desenvolvia junto às escolas municipais locais.

Ainda este ano o CIEP foi oficializado pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio de Janeiro (CREA/RJ) como Centro de Referência do Movimento de Cidadania pelas Águas de Campo Grande, neste movimento os participantes puderam trocar experiências com movimentos de todo o Brasil, o que possibilitou um olhar mais ampliado para as questões ambientais. Em 2007 o CIEP participou do curso de Formação em Educação Ambiental e Agenda 21 Escolar: Elos de Cidadania, oferecido pelas Secretarias Estaduais de Educação, de Ciência e Tecnologia e de Ambiente do Rio de Janeiro que propunham uma formação com análise crítica da realidade. A partir deste momento foi implementado no primeiro Curso de Formação de Agentes Ambientais e Rádio que formou cerca de quarenta alunos.

Neste mesmo ano o grupo de Educação Ambiental considerou reunir aos diversos setores da comunidade para discutir as condições ambientais da localidade, que concretizou com o I Fórum Ambiental do Rio da Prata. No fórum ocorreu a formação da mesa redonda que contou com representações da comunidade, da política, do órgão do governo (CEDAE), instituições ambientalistas e a igreja. O evento contou também escolas locais, representantes do governo, além de oficinas com atividades práticas sobre meio ambiente e grupos de trabalhos sobre as temáticas:  “Parque Estadual da Pedra Branca”, “Saúde e Meio Ambiente “Água e Saneamento”; “Educação Ambiental”; “Urbanização” e “Agricultura Local”.

Este foi o primeiro passo para aproximação junto aos agricultores locais, pois apesar do grupo de discussão sobre a agricultura local não ter ocorrido havia já a consciência de que diversos alunos da instituição eram filhos ou parentes de agricultores. Este fator foi importante desencadeador das ações aproximação com os agricultores e possibilitou que outros passos fossem dados neste sentido.

Neste mesmo ano o grupo de E.A. produziu o vídeo intitulado: Memória Popular do Rio da Prata, para tal, foi iniciada uma pesquisa teórica e entrevistas audiovisuais com moradores e com a Associação de Agricultores Orgânicos da Pedra Branca (AGROPRATA), o que  nos levou  a constatação da situação de conflito e vulnerabilidade em que ele se encontrava, pois a maioria de seus sítios estava estabelecida na área que fora destinada ao Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB), acima da cota cem. A cota cem é a altitude do Maciço da Pedra Branca que demarca o início do Parque Estadual da Pedra Branca, de acordo com a Lei estadual que criou o parque em 1974 e por este motivo os agricultores começaram a ser ameaçados de expulsão.

A partir deste momento as visitas aos agricultores passaram a ser constantes, no ano de 2011 um dos integrantes do CIEP passa a fazer parte do movimento popular Rede Carioca de Agricultura Urbana, uma instituição concebida pela comunidade organizada que incentiva o cultivo e o consumo de alimentos saudáveis. Este foi um momento essencial ao processo de aproximação, pois nesta ocasião novos saberes se agregaram as concepções de valorização do produtor, das comunidades tradicionais e dos alimentos saudáveis.

Em 2011 a Rede de Agricultura Carioca Urbana estive reunida no CIEP para discutir a acessibilidade dos agricultores da cidade do Rio de Janeiro a DAP e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Estiveram presentes neste encontro representantes da AGROPRATA, da AGROVARGEM, da AS-PTA, da EMATER, do PROFITO, do Conselho Municipal de Alimentação da ECAF/SMAS (Fazenda Modelo), do PACS, técnicos da Cedro (cooperativa de assistência técnica),  do Ministério do Desenvolvimento Agrário, professores, animadores culturais e alunos do CIEP.

Nesta reunião a escola se apresentou desejosa de obter alimentos orgânicos para a merenda escolar. Assim que saiu o primeiro edital de compras da alimentação escolar, a animadora cultural do CIEP foi até a sede da AGROPRATA levando o edital para que a escola pudesse realizar a primeira compra. Contudo, os agricultores estavam impossibilitados por não terem conseguido regularizar a DAP. Enfim, no segundo edital no CIEP passa a adquirir alimentos orgânicos de famílias de agricultores de Vargem Grande, e em junho de 2013 torna-se a segunda escola do município a comprar produtos orgânicos.

Ainda no ano de 2011, o CIEP fez parceria e cedeu espaço ao Programa de Desenvolvimento do Campus Fiocruz da Mata Atlântica para o desenvolvimento do projeto de implantação tecnologias sustentáveis que seria oferecido a comunidade, estes encontro possibilitou a construção do Projeto Tecnologias Sustentáveis em Escolas Públicas do entorno do Parque Estadual da Pedra Branca – Rio De Janeiro/RJ. O projeto aconteceu nos anos de 2012 e 2013 e atingia duas unidades escolares o CIEP e Colégio Estadual Brigadeiro Schorcht e tinha como primeiros parceiros o Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO), o Canteiro Experimental de Tecnologia Social em Saneamento e Saúde da Escola Politécnica Joaquim Venâncio da Fiocruz (CETESA/EPSJV), a Cooperativa de Trabalho Constrói Fácil e a Transatlantic Informatic Sand Consulting Ltda (monitores Sociedade do Sol no RJ) e posteriormente foi agregando outras parcerias como o PROFITO e a AGROPRATA.

Este projeto tinha por objetivo a implantação de tecnologias ecoeficientes de baixo custo. O processo de formação envolveu funcionários, professores, alunos  em oficinas de capacitação sobre aquecimento solar de água e aproveitamento de água de chuva que foram com aulas práticas e teóricas ministradas por curso de aquecimento solar de baixo custo (ASBC) ministrado pelo engenheiro Mauro Lerer, a implantação de hortas agroecológicas e um pequeno horto. Foram também organizadas exibições e debates sobre o documentário “O Veneno está na Mesa”,com a participação de Alexandre Pessoa Dias, engenheiro civil sanitarista e Professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), o agricultor Francisco Caldeira membro da Rede de Agricultura Urbana e na época conselheiro titular do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA – RJ) e de Flavia Passos Soares coordenadora do projeto e  do Escritório técnico de Iniciativas Locais para o Território Saudável do Programa de Desenvolvimento do Campus Fiocruz da Mata Atlântica, Marlene cozinheira do CIEP Brigadeiro Sérgio Carvalho, Carlos prof. De geografia e participante da Ecovila do Rio da Prata realizou-se também a oficina denominada  “Papo legal” que consistia em levantar temas importantes para discussão e dinâmica sobre diversos relacionados ao meio ambiente e realizar o diagnostico ambiental do CIEP. Outra atividade foi a criação de uma composteira coma participação dos alunos e professores.

Em parceria com o projeto o PROFITO/Fiocruz e com a Rede Carioca de Agricultura dois alunos de iniciação científica, orientados pela profa. Annelise Fernandez do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais (PPGCS/UFRRJ) e por Sílvia Regina Nunes Baptista, na época estudante de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS/ICICT/FIOCRUZ) e a agricultora Dalila da AGROPRATA conduziram oficinas que tinham por objetivo fazer com que os alunos reconhecessem e catalogassem as plantas medicinais no terreno da escola para se definir que plantas permaneceriam no local antes da implantação da horta.

A primeira técnica utilizada envolveu uma adaptação livre do trajeto agroecológico, durante oficina do projeto realizada pela agricultora Dalila Silva (AGROPRATA) e a professora de Biologia Rosilene que conduziram os estudantes de para o reconhecimento de plantas medicinais no terreno da escola. O objetivo era fazer o reconhecimento e catalogar as ervas medicinais espontâneas do quintal do CIEP e selecionar as plantas que ficariam e as que seriam retiradas para na construção da horta. A UEZO na figura da Professora Ida ficou responsável pela mediação da horta orgânica e da implantação do horto, no quais um grupo de alunos era responsável por seu cuidado.

A horta sofreu um ataque de pragas e a respeito disto foi organizado o evento “As cochonilhas estão chegando”, neste evento levou-se  alunos e visitantes para um tour pela escola para divulgar as atividades que estavam ocorrendo, a UEZO  montou stand sobre microorganismos para que os alunos conhecerem mais de perto as “cochonilhas”(pragas que afetam tomateiros).  Neste dia, além da participação do Projovem local tivemos também a visita da Dra. Ma. Elena Zermeño Espinosa, professora da Universidad Autónoma de Baja California (Mexicali, México).

O projeto deixou uma herança material –  o aquecedor solar de baixo custo – que serve para a higienização da merenda escolar, e no campo dos saberes muitos alunos, a partir deste projeto, puderam ampliar seu conhecimento e prática no campo ambiental. Mas, ainda sentimos pela pequena adesão do corpo docente. A estrutura física deixada pelo projeto, além de materializar práticas ambientais permitiu a demarcação simbólica do espaço escolar como espaço sustentável.

Com o fim do projeto, entre os anos de 2013 e 2014 foi implantado no CIEP o programa “Elos da Cidadania”, nele foram realizadas diversas atividades de educação ambiental, como o diagnóstico ambiental da região do Rio da Prata e do Lameirão diversas visitas aos agricultores do Parque Estadual da Pedra Branca, a escola também adotou e batizou no sítio do Farol da Prata a nascente Elo D. Nonola, onde pode fazer exercícios de reflorestamento do entorno da nascente e um evento junto ao Parque Estadual da Pedra Branca em homenagem ao dia da água. Os alunos CIEP também participaram do evento “Tira caqui”, onde juntamente com várias instituições os alunos participavam da coleta de caqui. No ano de 2013 alunos do CIEP participaram também do curso de vídeo proporcionado pelo Programa PROFITO. Ao final do curso construíram um vídeo onde os entrevistados eram os agricultores do maciço. Estas atividades possibilitaram que os alunos pudessem vivenciar o dia a dia, o universo da agricultura local.

No ano de 2014,   teve início no CIEP duas práticas espontâneas de educação ambiental com o  engenheiro agrônomo e paisagista Lucas (ex-aluno do CIEP) que iniciou um curso de paisagismo e outro  de educação ambiental por Paolo de Castro mestrando pela UFRRJ. Mas, nenhuma destas atividades teve seguimento. Paralelamente a animadora cultural Alice influenciada pelas diversas relações do CIEP junto a agricultura local decidiu pesquisar sobre a memória e identidade dos agricultores do Rio da Prata. No ano de 2014 defendeu a tese de mestrado “Sertão Carioca: identidade e memória da comunidade agrícola do Rio da Prata – RJ”.

Certamente, muitas atividades que compunham este caminhar ficaram de fora deste texto, contudo, o que podemos destacar de mais importante nestas práticas foram os encontros com os agricultores. Normalmente, eram momentos festivos onde se aguçava a curiosidade por parte dos alunos que ali que surpresos passavam a perceber que ali tão perto havia produção agrícola, Começam a se apropriar de saberes que estavam para além dos livros didáticos, trazendo nova consciência do espaço. Quanto aos funcionários e corpo docente é notável a diferença de postura quanto ao assunto, hoje vários começam a inserir em sua dieta alimentação orgânica de produção local.

O CIEP, assim como as demais escolas brasileiras, tem por ideologia perpetuar o olhar cartesiano e disciplinar, isto somado ao fato de ser uma escola regular é empecilho à assimilação de práticas transdisciplinares, como, essencialmente, são traçadas as bases da agroecologia. Mas, em contraponto a estas dificuldades, o exercício das práticas ecológicas abre caminhos possíveis à introdução de conceitos sustentáveis e agroecológicos, pois além de fomentar práticas interdisciplinares também faz com que a escola sai de si e deixe de ser uma “escola na comunidade”, para tornar-se a “escola da comunidade”. Isto se dá cada vez que a escola abandona os bancos escolares e sai ao encontro da comunidade, nestes momentos a comunidade passa a referenciar a escola como parceira e começa a se dar a transdiciplinaridade.

Com este ensaio queremos mostrar que a busca de práticas agroecológicas por parte do CIEP nunca foi um exercício simples. Os laços que vinculavam o CIEP à agricultura eram, a princípio, a proximidade com a região agrícola e possuir entre seus alunos parentes de agricultores, eram ainda laços muito frágeis, pois os alunos se negavam a admitir tal relação com agricultura e se identificavam com a vida urbana. Contudo, à medida que a escola se a próxima da comunidade agrícola esta realidade começa a se transformar tanto para a comunidade escolar quanto para a comunidade agrícola do entorno.  O CIEP passa a compreender a comunidade agrícola como sua colaboradora e da mesma forma a comunidade passa a ver o CIEP.

Esta parceria produz num primeiro momento mudanças simbólicas. Tanto o CIEP quanto a comunidade passaram a possuir novos sentidos, novas representações uns para os outros. Só a partir destas aquisições puderam transformar a realidade escolar e comunitária. Este é um processo lento e contínuo, descrito em perdas e vitórias, nas quais, às vezes, os eventos mais úteis são os que produzem maior transformação, portanto não pode ser analisado em práticas pontuais, pois estas não responderiam adequadamente ao que vem ocorrendo no processo de aquisição de práticas ecológicas. Então, é possível dizer que o CIEP caminha em direção às práticas agroecológicas e que estas mudanças não ocorrem dentro do CIEP, mas à medida que cada pessoa é transformada, estas mudanças também são levadas para os seus lares.

Bibliografia:

FEIDEN, Alberto. Agroecologia: introdução e conceitos. In: Agroecologia: Princípios e técnicas para uma agricultura orgânica sustentável. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2005.

FRANCO, Alice Alves. Sertão Carioca: Identidade e memória da comunidade agrícola do Rio da Prata – RJ. Dissertação (Mestrado), Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

MARTINS, Sandra. Cine Rio da Prata: documentário mostra a diversidade da região e sua relação com o homem.  Revista APPAI Educar, p.10-11. Disponível em: <http://www.appai.org.br/media/projetosimagens/revistaeducar/edicoes/70/tema-transversal.pdf>. acesso em 12 jun.2015.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *